República de Curitiba

“Nem Moro, nem Dallagnol ou a PF têm mais lisura do que eu”, explica Lula aos petistas durante seminário

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Réu em cinco processos, três deles provenientes da Lava Jato, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva proferiu um discurso no dia 24 aos pestistas   durante o Seminário “O que a Lava Jato tem feito pelo Brasil”, organizado pelo Partido dos Trabalhadores.   Ele afirmou que a operação fez “a coisa mais sem-vergonha” que aconteceu no Brasil, dirigindo ataques ao juiz Sergio Moro e aos membros do Ministério Público Federal e da Polícia Federal. Ele afirmou ainda que Moro, o procurador Deltan Dallagnol e “o delegado da Polícia Federal” não têm mais ética, lisura e honestidade do que ele.

— A Lava Jato não precisa de um crime, ela acha alguém para depois tentar colocar um crime em cima de um criminoso. E para isso eles fizeram a coisa mais sem-vergonha que aconteceu nesse país porque um juiz precisa da imprensa para execrar as pessoas, que estão sendo citadas, junto à opinião pública e depois facilitar o julgamento — afirmou o petista.

Ele também chamou o procurador da República, Deltan Dallagnol, chefe da força-tarefa que investiga o esquema de corrupção na Petrobras, de “moleque”. Segundo Lula, Dallagnol, que é fiel da Igreja Batista, acha que “sentar em cima da Bíblia dele” é a solução dos problemas do país.

—  A instituição é muito forte. E aquele Dallagnol sugerir que o PT foi criado para ser uma organização criminosa… O que aquele moleque conhece de política? Ele nem sabe como se monta um governo. Não tem a menor noção. Ele acha que sentar em cima da Bíblia dele dá a solução de tudo — disse Lula no encerramento do seminário “O que a Lava-Jato tem feito pelo Brasil” promovido pelo PT.

Com a voz fraca e abatido por uma virose, Lula falou menos de 10 minutos e chegou a chorar ao dizer que fez um esforço para comparecer ao evento apenas para dar uma satisfação aos mais de 200 convidados que lotaram o auditório de um hotel em São Paulo. Além de dirigentes petistas, o seminário contou com a presença de juristas, jornalistas, petroleiros e políticos de outros partidos.

No discurso, Lula também defendeu o projeto de lei do abuso de autoridade. A posição do ex-presidente foi endossada pelo presidente do PT, Rui Falcão.

— O que o Lula falou é o que nós achamos também. Ninguém pode se colocar acima da lei — disse Falcão.

Os participantes do evento defenderam as investigações da Lava-Jato, mas destacaram os supostos abusos da força-tarefa. Lula desafiou os procuradores a apontarem quais crimes ele cometeu.

— Estou na expectativa para saber qual é o crime que será imputado a mim. Vou nessa briga até o fim. Não tenho negociata. Eles vão ter que provar — disse o ex-presidente.

 

Ele citou o juiz que coordena as investigações em Curitiba e o coordenador da força-tarefa da Lava-Jato no MPF.

— “Eu tenho dito que eles deram um azar muito grande porque foram mexer com quem eles não deveriam ter mexido. Nem o Moro, nem o Dallagnol, nem o delegado da Polícia Federal têm a lisura, a ética e a honestidade que eu tenho nestes 70 anos de vida — falou Lula.

Lula se referiu ao interrogatório que vai comparecer em Curitiba no dia 3 de maio e disse que está esperando por qual crime ele será imputado.

— Eu duvido que tenha um empresário solto ou preso que diga que um dia o Lula pediu 10 centavos para ele — afirmou.

O petista ressaltou que condena que dirigentes partidários peçam dinheiro para empresários.

— Nunca permiti que nenhum empresário fizesse isso, e sou amigo de muitos empresários — declarou.

No discurso, o ex-presidente defendeu a aprovação do projeto de lei do abuso de autoridade no Congresso. O texto é visto como ameaça às investigações. Na plateia do evento, estava o senador Roberto Requião (PMDB-PR), relator da proposta no Senado.

— A gente não pode deixar de aprovar a lei de abuso de autoridade, porque ninguém está acima da Constituição — afirmou Lula.

Ele pediu que os parlamentares petistas “briguem” mais para aprovar a lei e impedir o abuso de agentes públicos no país.

— Nós somos um partido que foi criado para mudar a história desse país, não fomos criados para ficar com medo — disse.

Lula disse que é preciso defender “companheiros” que são acusados sem provas. Na sua fala, não faltaram críticas à imprensa.

— É preciso mostrar o outro lado da Lava-Jato. A Lava-Jato é uma moeda que tem a cara da Globo, das televisões outras, dos jornais, a cara da Veja, da Época, da Istoé, do procurador, da Polícia Federal, tem a cara do Moro. Mas não tem a cara do povo que está sendo prejudicado — disparou.

O petista disse ainda que está sendo vítima de acusações de que ele está antecipando uma candidatura a presidente da República ao fazer atos públicos, como a viagem para a Paraíba nas obras do Rio São Francisco e a manifestação contra a reforma da Previdência na Avenida Paulista.

— Agora vão começar outro processo, dizer que estou vetado para ser candidato porque estou em um processo de antecipação de campanha — disse.

O ex-presidente disse que vai se defender, aguardar o julgamento e “ir até a última consequência” nos processos da Lava-Jato.

— Se eles querem pegar o Lula, não estraguem o Brasil, encontrem outro pretexto, o Brasil é muito maior que o Lula — afirmou.

O petista ressaltou que não tem medo das acusações, mas tem preocupação com a democracia e as instituições.

Requião

Presente no evento do PT para discutir a Lava-Jato, o senador Roberto Requião (PMDB-PR) garantiu que o projeto do abuso de autoridade vai ser votado no Senado. E também destacou que “tem todas as condições” para ser aprovado. À Agência Estado, Requião afirmou que foi convidado por Lula para comparecer ao evento. Filiado ao partido do presidente Michel Temer, mas atuante na oposição ao peemedebista, Requião era o único parlamentar não petista presente no evento.

— Qual o problema? Ele (Lula) me convidou e convidou o PMDB — brincou.

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Repasse para conta do “Amigo” foi de R$ 15 milhões, confessa Marcelo Odebrecht

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Marcelo Odebrecht, herdeiro e ex-presidente do grupo que leva seu sobrenome, apresentou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) documentos que apontam o detalhamento da suposta movimentação da conta-corrente do Setor de Operações Estruturadas – o departamento da propina – realizada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A informação consta de trechos das declarações divulgadas ontem pelo site “O Antagonista”. Entre os documentos está uma curta planilha em que aparece o codinome “Amigo”, que seria uma referência a Lula.

A lista revela que, em 22 de outubro de 2013, o saldo de “Amigo” era de R$ 15 milhões. Já em 31 de março de 2014, o valor passou para R$ 10 milhões – não foi explicado o que foi feito com R$ 5 milhões.

Ao falar sobre o gerenciamento da conta com recursos repassados para as campanhas de Lula e da presidente cassada Dilma Rousseff, Marcelo afirmou que foi o ex-presidente quem indicou o ex-ministro da Casa Civil Antonio Palocci para ser o administrador da conta corrente irrigada por recursos de caixa 2. Denúncia: Marcelo Odebrecht diz que Dilma sabia de caixa 2

“Eu falei com ela (Dilma)… Olha, presidente, em 2010, 2009, em 2010, eu falei: presidente, tudo eu estou tratando com o Palocci, era o meu combinado com o Lula, tá ok? Ela falou: Tá ok”, disse o delator.

A assessoria de imprensa do Instituto Lula, por meio de nota, afirmou que não foi encontrado nenhum recurso indevido para o ex-presidente. “Lula jamais solicitou qualquer recurso indevido para a Odebrecht ou qualquer outra empresa para qualquer fim e isso será provado na Justiça.”

“Lula não tem nenhuma relação com qualquer planilha na qual outros se referem a ele como ‘Amigo’.” O instituto disse que “não cabe comentar depoimento sob sigilo de Justiça vazado seletivamente e de forma ilegal.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo

Odebrecht não depositava propina nos EUA: “Fiscalização era rígida”, afirmou ex-executivo

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O ex-executivo Hilberto Mascarenhas Alves da Silva Filho, apontado como o líder do Departamento da Propina da Odebrecht, em depoimento ao TSE, disse que a empreiteira depositava suborno no exterior em offshores, exceto nos Estados Unidos, por medo da fiscalização das autoridades americanas:

“Decidimos que não faríamos o pagamento a ninguém daquele país, porque era um país complicadíssimo, iria interferir nos assuntos e nós não queríamos a interferência dos Estados Unidos nesses assuntos.

Além da fiscalização rígida, eles se envolvem profundamente, quando descobrem que houve circulação de moeda no país deles, independente de a prestação de serviço ter sido de fora”, afirmou o Hilberto Filho

Em 2014, a ordem era doar tudo para campanha de Dilma, diz Marcelo Odebrecht sobre dinheiro de caixa 2

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O empreiteiro Marcelo Odebrecht afirmou em seu depoimento ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que a ex-presidente Dilma Rousseff tinha conhecimento do uso de dinheiro de caixa dois para pagar o marqueteiro João Santana, responsável por sua campanha à reeleição em 2014. Ele também relatou que uma ordem dado por Guido Mantega orientava que todo o dinheiro não fosse mais para o PT, mas somente para a campanha de Dilma.

Trechos do depoimento que incriminam Dilma e outros petistas — como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os ex-ministros Antonio Palocci, Guido Mantega e Paulo Bernardo — foram divulgados nesta quinta-feira pelo site “O Antagonista”.  Nesses trechos, há apenas uma menção ao presidente Michel Temer, que foi vice de Dilma até ela sofrer o impeachment, no ano passado. Como Dilma não é mais presidente, na prática a ação em curso no TSE pode levar à cassação do mandato de Temer. Mas o empresário negou ter tratado de repasse de dinheiro para campanhas diretamente com o presidente. Segundo Marcelo Odebrecht, a negociação foi com um aliado próximo de Temer, o atual ministro da Casa Civil Eliseu Padilha.

— A Dilma sabia da dimensão da nossa doação, e sabia que nós éramos quem doa… quem fazia grande parte dos pagamentos via caixa dois para João Santana. Isso ela sabia — disse Marcelo Odebrecht no depoimento prestado em 1º de março.

O ministro Herman Benjamin, relator da ação no TSE, questionou então se Marcelo Odebrecht alertou Dilma sobre pagamento por caixa dois.

— O que Dilma sabia era que a gente fazia, tinha uma contribuição grande. A dimensão da nossa contribuição era grande, ela sabia disso. E ela sabia que a gente era responsável por muitos pagamentos para João Santana. Ela nunca me disse que ela sabia que era caixa dois, mas é natural, é só fazer uma… Ela sabia que toda aquela dimensão de pagamentos não estava na prestação do partido — respondeu.

Em outro trecho, Marcelo afirmou que também não tratou diretamente com Dilma sobre valores, mas com o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega.

– O Guido teve uma conversa comigo e disse: “Marcelo, a orientação dela agora é que todos os recursos de vocês vão para a campanha dela. Você não vai mais doar para o PT, você só vai doar para a campanha dela, basicamente as necessidades da campanha dela: João Santana, Edinho Silva (tesoureiro da campanha) ou esses partidos da coligação.

Na campanha de Dilma em 2014, Marcelo Odebrecht relatou que acertou o pagamento de R$ 177 milhões com Guido Mantega. Isso inclui os R$ 50 milhões não doados em 2010 e que ficaram para a campanha seguinte, outros R$ 100 milhões específicos para 2014, e mais uma parcela de R$ 27 milhões que, segundo ele, foi usada em grande parte antes mesmo da eleição. Ainda de acordo com o empresário, ao falar de Palocci, entre 2008 e 2014, foram acertados R$ 300 milhões. Não ficou claro se os R$ 300 milhões dizem respeito apenas a Palocci, ou se incluem também os valores acertados com Mantega.

Marcelo Odebrecht relatou ainda um pedido de R$ 64 milhões feito antes mesmo da eleição de 2010 pelo então ministro do Planejamento Paulo Bernardo. Em troca, a empresa conseguiu a aprovação de uma linha de crédito para a empresa.

— No assunto dos 64, que foi gasto antes mesmo da eleição de 2010, para aprovar a linha de crédito, o Paulo Bernardo solicitou R$ 64 milhões. Na verdade eram US$ 40 milhões, que depois eu baixei para 36, que, transformando em reais, foi R$ 64 milhões.

Ele também disse achar que parte do dinheiro usado para comprar o apoio da base a Dilma em 2014 também saiu de caixa dois. Segundo Marcelo Odebrecht, isso foi feito a pedido de Mantega. Os recursos saíram da “conta” da Odebrecht destinada a atender os pedidos do ex-ministro.

— Se eu não me engano, uma parte disso foi de caixa dois. E esse recurso sai também dessa minha conta corrente.

Ele afirmou ter alertado Dilma Rousseff de que os pagamentos feitos a João Santana em contas no exterior, sem registro oficial, poderiam resvalar na Lava-Jato. Segundo o empreiteiro, a presidente não teria dado importância ao alerta.

— Eu alertei ela e vários outros assessores dela — disse o empreiteiro.

Marcelo contou que também alertou Mônica Moura, mulher do marqueteiro, em 2015, sobre a forma como os pagamentos eram feitos. Segundo o depoente, os pagamentos estariam “contaminados”, porque não estavam contabilizados oficialmente. Na época, ainda segundo o empreiteiro, Mônica teria dito a ele para não se preocupar, porque a maior parte do dinheiro era referente a serviços prestados pelo marido em outros países, sem relação com a campanha presidencial.

— Eu acho que esse argumento que a Mônica usou pra mim ela usava com a Dilma e com vários outros interlocutores, aí quando eu ia falar com eles, eles não se mostraram tão preocupados — disse no depoimento.

Em outro trecho do depoimento, Marcelo Odebrecht negou que tivesse tratado de repasse de dinheiro para campanhas diretamente com o presidente Michel Temer em um jantar no Palácio do Jaburu. O empreiteiro disse que a negociação ocorreu antes disso, entre o ex-executivo da Odebrecht Claudio Melo e o atual ministro da Casa Civil Eliseu Padilha.

— O jantar, na verdade, foi o ´shaking hands´. Na verdade, semanas antes do jantar, o Cláudio Melo me ligou e disse que havia uma solicitação de R$ 10 milhões que o Padilha havia feito, para apoiar candidatos do Temer, do grupo do Temer, digamos assim. E eu, como sempre fiz com o Cláudio Melo, e todos os empresários do grupo sabem disso, eu disse: Cláudio, você tem que procurar um empresário do grupo que esteja disposto a fazer este apoio, certo? E ele foi procurar algum empresário do grupo que tivesse disposto a fazer este apoio — disse o delator ao TSE.

Marcelo também afirmou recebeu do presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, pedido de apoio na campanha para o governo de São Paulo no valor de R$ 6 milhões. Segundo o empresário, o pedido de Skaf não tinha nada a ver com a negociação sobre os candidatos apoiados por Temer. Mas o próprio Marcelo teria sugerido que Skaf angariasse o apoio de Temer, para que o valor entrasse no mesmo pacote.

— Em determinado momento, ele (Skaf) até me colocou numa ligação celular com Michel, que ele falou: “Marcelo, tem alguém aqui querendo falar com você”. Aí eu atendi, era o Michel, e falou: “Marcelo, a importância de apoiar [conversa totalmente institucional], a importância de apoiar o Paulo”. Aí, falei: “Sim, presidente, pá, pá”, desliguei o assunto — contou o Marcelo Odebrecht.

Depois de tudo acertado, houve o jantar no Jaburu:

— Só que num jantar com o vice-presidente, até pela liturgia do cargo, as coisas se resolvem antes. Então, Cláudio já havia acertado com o Padilha antes que seria 10 e seria 6 para Paulo Skaf. Quando eu cheguei lá na casa do Michel Temer com o Cláudio, teve até uma primeira conversa — eu, ele e o Padilha —, que ficou mais ou menos acertado isso. Depois teve o jantar com o Michel, que foi um jantar institucional, até pela liturgia do cargo, eu nunca faria a falta de educação de mencionar valor.

O empresário disse ainda que pagava um “conforto” a João Santana, em razão dos problemas comuns em várias campanhas políticas, em que o marqueteiro fica sem receber parte do combinado.

— Todo o marqueteiro tinha um problema com campanha, de você fazer a campanha e depois você paga. E aí, começou um processo, lá atrás, estou falando de 2008, onde eles procuravam acertar com a gente um valor e a gente dar um conforto a João Santana, que ele recebia.

Marcelo Odebrecht também relatou que, a pedido de Mantega, repassou dinheiro a um veículo de comunicação aliado do governo.

A assessoria de imprensa da ex-presidente divulgou nota intitulada “Não adianta lançarem novas mentiras contra Dilma Rousseff”. O texto afirma que a petista “não tem e nunca teve qualquer relação próxima com o empresário Marcelo Odebrecht, mesmo nos tempos em que ela ocupou a Casa Civil no governo Lula”. A nota também diz que Dilma “sempre manteve uma relação distante do empresário, de quem tinha desconfiança desde o episódio da licitação da Usina de Santo Antônio”.

A assessoria também declarou que a ex-presidente “jamais pediu recursos para campanha ao empresário em encontros em palácios governamentais, ou mesmo solicitou dinheiro para o Partido dos Trabalhadores”. Ainda no texto, a assessoria desafiou Marcelo Odebrecht a produzir provas contra a petista para sustentar as acusações. “Não basta acusar de maneira leviana”, afirmou.

Ministro divulga “lista suja” de empresas envolvidas com trabalho escravo

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O Ministro do Trabalho, Ronaldo Nogueira, publicou nesta quinta-feira (23) a lista suja do trabalho escravo, suspensa havia mais de dois anos. Inicialmente, o governo havia divulgado cadastro com 85 empregadores, mas em seguida corrigiu o número para 68 empregadores. Desses, pelo menos 10 (ou 14,7% do total) são empresas do ramo de construção. Uma ação da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) questionou a lista suja no Supremo Tribunal Federal (STF), em dezembro de 2014, dando início ao imbróglio jurídico em torno do tema que se arrasta até hoje. A lista completa está disponível no site do Ministério do Trabalho: http://www.trabalho.gov.br/component/content/article?id=4428

A lista, que começou a ser publicada em 2003, é considerada um dos principais instrumentos de combate ao trabalho escravo no Brasil – e, segundo especialistas e instituições que combatem o problema no mundo (como a Organização Internacional do Trabalho), um modelo a ser seguido por outros países.

A partir dela, empresas e bancos públicos podem negar crédito, empréstimos e contratos a fazendeiros e empresários que usam trabalho análogo ao escravo.

A chamada escravidão moderna atinge mais de 45,8 milhões de pessoas no mundo, segundo a edição mais recente do Índice Global de Escravidão, publicada pela Fundação Walk Free, da Austrália, divulgada em junho de 2016.

No Brasil, a Walk Free estima que sejam 161,1 mil os trabalhadores em condições análogas à escravidão. Em 2014, eram 155,3 mil.

Segundo o Código Penal Brasileiro, o trabalho análogo ao escravo é caracterizado por quatro elementos: condições degradantes de trabalho, incompatíveis com a dignidade humana; jornada exaustiva, na qual o trabalhador é submetido a esforço excessivo ou sobrecarga de trabalho que acarreta a danos à sua saúde ou risco de vida; trabalho forçado, em que a pessoa é mantida no serviço através de fraudes, isolamento geográfico, ameaças e violências físicas e psicológicas, e servidão por dívida, fazendo o trabalhador contrair ilegalmente um débito. Os elementos podem vir juntos ou isoladamente.

Vale ressaltar que a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas apoiam o conceito utilizado no Brasil.

Prejuízo bilionário nas exportações de carne. Quem disse que a corrupção não tem custo?

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Por Elisa Robson*

“Não era possível que, depois de tanto trabalho, fôssemos pegos de calças curtas”.  Essa foi precisamente uma das declarações mais recentes do Ministro da Agricultura, Blairo Maggi. Ele se referiu ao fato de ter sido surpreendido com a deflagração da Operação Carne Fraca, pela Polícia Federal, ocorrida na sexta-feira passada, 17.

A maior operação da PF, que envolveu mil agentes, descobriu o enriquecimento ilícito de fiscais do ministério da Agricultura, mediante pagamento de propina em forma de dinheiro, apartamentos, propriedade rural e até mesmo carros de luxo. Indícios graves sobre práticas criminosas recaíram sobre, nada menos, que 21 empresas do setor que participaram do esquema a fim de conseguirem facilidades na liberação de carnes.

Detalhes sobre a maquiagem de carnes vencidas e práticas proibidas para aumento do lucro estão descritos em um relatório da justiça de 356 páginas. Segundo a PF, os frigoríficos envolvidos na Operação maquiavam carnes vencidas e as reembalavam para conseguir vendê-las.

As investigações colocaram em xeque o sistema de fiscalização sob o comando de Daniel Gonçalves Filho e Maria do Rocio Nascimento, considerados chefes do esquema fraude. Assim como foi preso o gerente de Relações Internacionais e Governamentais da BRF (Brasil Foods), Roney Nogueira dos Santos, que remunerava diretamente fiscais contratados, presenteava-os com produtos da empresa e se dispunha a auxiliar no financiamento de campanha política. Com tantas benesses, há notícia de que ele possuía login e senha para acessar diretamente o sistema de processos administrativos do Ministério, obviamente de uso restrito ao público interno.

Todas essas informações foram divulgadas com a decisão do juiz Marcos Josegrei da Silva, da 14ª Vara Federal de Curitiba, que autorizou o cumprimento dos mandados de prisão e busca e apreensão.

O relatório do juiz apontou que para tentar burlar a possível fiscalização eram adotadas algumas estratégias, como trabalhar em horários alternativos, durante a noite. Há, por exemplo, a utilização da carne de cabeça na fabricação de linguiça, prática vedada. Presunto considerado “mais ou menos putrefato” foi normalmente usado, já que foi considerado sem cheiro ruim, o que poderia inviabilizar seu aproveitamento. “Outras substâncias”, como relatado pelo juiz, também foram utilizadas na fabricação dos produtos.

O próprio magistrado se espantou com a naturalidade com que os envolvidos no esquema trataram da utilização de carne contaminada na produção dos derivados. Em um trecho o juiz afirma que “chega a causar náuseas” a forma como é definida a utilização de carne de peru com salmonela para fazer mortadela. Os fiscais Carlos Cesar e Carlos Augusto Goetzke aparecem em diálogos dizendo que precisariam ir até o frigorífico Santos para liberar a carga de 18 toneladas de carne, mesmo sabendo que elas estavam contaminadas. O produto seria, por fim, usado para ser misturado e usado para o embutido.

Todo o trabalho da Polícia Federal nos mostrou, mais uma vez, o grande desafio que será para o Brasil sair da atual recessão tendo um sistema tão corrupto e insalubre. O fato de a corrupção estar profundamente enraizada nas estruturas políticas, sociais e econômicas do nosso país faz com que seja mais difícil ainda cumprir nossas obrigações perante o mercado internacional.

Apenas um exemplo.

A indústria da carne brasileira exporta o equivalente a US$ 12 bilhões por ano, de acordo com a Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). Em 2016, só de carne bovina foram gerados US$ 5,5 bilhões, com as 1,4 milhão de toneladas enviadas a 150 países, segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec).

O maior comprador é Hong Kong – região administrativa especial da China -, que importou 330 mil toneladas, gerando US$ 1,1 bilhão para o Brasil. Na terça-feira (21), autoridades sanitárias do Japão e de Hong Kong suspenderam a exportação de carne brasileira, na esteira de restrições já impostas por China, Chile, União Europeia e Suíça.

O fato é que investidores externos não querem ter de lidar com um esquema tão corrupto.  E isso cria uma instabilidade totalmente perceptível: não há qualquer possibilidade real de crescimento econômico para um país afundado em corrupção.

(Fora o fato de termos que assistir um ministro assustado declarando que “foi pego de calças curtas” e sugerindo que a polícia foi a grande responsável pelas consequências no campo comercial. O que, evidentemente, não foi.)

Portanto, a melhor coisa que pode ser feita é mostrar ao mundo que o que impede a corrupção de se espalhar ainda mais pelo nosso país é o fato de termos um sistema que está sendo restringido por um sistema ainda maior: o trabalho da Polícia Federal, como a Operação Lava Jato e a Operação Carne Fraca que estão inibindo fortemente as práticas corruptas.

Além disso, está mais do que na hora de entendermos que a corrupção que perpassa todo o Brasil — do governo aos empresários — está tão profundamente arraigada, que, se nada for feito por órgãos como a Polícia Federal, será praticamente impossível qualquer recuperação econômica.

E, finalmente, se esse sistema indesejável não puder ser modificado, os brasileiros terão de mudar a única coisa que ainda podem mudar — o lugar em que vivem.

Elisa Robson é jornalista.

 

Em quatro anos, prejuízo dos Correios chega a R$ 5,5 bilhões

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A estatal Correios, que já foi símbolo de eficiência, agoniza com o  acúmulo de prejuízos que, somente nos últimos quatro anos, somam mais de R$ 5,5 bilhões. Chegou ao fundo do poço no governo Dilma, fechando 2015 com prejuízo de R$2,1 bilhões – o pior resultado desde sua criação, há 354 anos. Para ganhar um “respiro”, suspendeu por um ano regalias aos 117.000 funcionários, quando eles entram em férias. A informação é do colunista Cláudio Humberto, do Diário do Poder.

Quando um trabalhador entra em férias, recebe gratificação de um terço do salário. Os Correios dobram a gratificação: 70% do salário.

Além dos 70% de presente, funcionário dos Correios em férias ganha mais um salário a título de “empréstimo”, a ser pago em cinco vezes.

No ano da reeleição de Dilma, a estatal inventou lucro de R$9 milhões ao considerar “receita” R$ 1,1 bilhão não pagos ao fundo Postalis.

Os Correios esperam economizar R$1 bilhão ao ano com as 5,5 mil adesões ao PDV. Cerca de 10% da folha anual de R$10,9 bilhões.

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