Juízes de 1ª Instância: saiba por que eles conseguem frear a impunidade

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Por Elisa Robson*

A primeira vez que fui a São Paulo unicamente para fazer turismo, além de visitar os pontos principais da capital paulista, escolhi conhecer a Catedral Metropolitana Ortodoxa, na rua Vergueiro. Meu interesse havia sido despertado algumas semanas antes quando li sobre o trabalho da Igreja Ortodoxa Cristã, na Rússia.

Descobri que lá as formalidades para uma simples oração, por exemplo, são bem maiores do que estamos habituados a ver. Diante de um pedido de oração, você não verá um sacerdote simplesmente fechar os olhos e começar a rezar.

O escritor Philip Yancey fez uma descrição curiosa dessa situação, na ocasião em que esteve no país:

“(Após pedirem para o sacerdote fazer uma oração). Ele desapareceu por trás do altar no fundo da capela… Depois trouxe dois castiçais e dois incensários, que pendurou com dificuldade no lugar devido e acendeu. (…) Tirou o barrete da cabeça e as vestes exteriores e amarrou punhos dourados reluzentes sobre as mangas negras. Em volta do pescoço, pendurou uma estola dourada e drapeada, e a seguir um crucifixo de ouro. A cada movimento parava para beijar a cruz e fazer uma genuflexão.”  Finalmente, estava pronto para orar.  A oração incluía mais uma série de formalidades.  E não consistia em recitar versos, como em uma reza, mas em entoar um hino seguindo a partitura de um livro litúrgico. Até o “Amém”, foram uns 20 minutos.

Para nós, cristãos do ocidente, a reverência dos ortodoxos russos pode parecer desproporcional. Como se eles só conseguissem se aproximar de Deus depois de muitos preparativos.

Mas um detalhe deve ser observado.

Sob um regime comunista, que excluiu Deus de tudo, a igreja cristã ortodoxa, com seu ritmo calmo como o da eternidade, continuou colocando Deus no centro e simplesmente sobreviveu ao maior ataque ateísta da história.

***

Hoje, os brasileiros estão vendo os juízes de Primeira Instância apresentando resultados singulares de suas atuações. A despeito de todo ataque que têm sofrido, incluindo diretamente do presidente do Senado Federal, que zombateiramente os chamou de “juizecos”, e de outros políticos e ex-políticos, que insistem no desrespeito, eles continuam fazendo o seu trabalho com constância e nos dando as melhores notícias dos últimos tempos.

Sob um regime de intensa corrupção, eles continuam colocando, dia após dia, a Justiça no centro e sobrevivendo ao maior ataque à magistratura da nossa história.

Nós, como sociedade, também temos a nítida impressão de que o trabalho deles parece melhor executado do que o das demais instâncias. Mas há uma explicação pra isso, conforme pontuou o jurista Dr. Jorge Béja.

“Perto de completar 70 anos de idade e 46 de exercício contínuo e sem interrupção da Advocacia, constatei que os juízes de Primeira Instância sempre julgam melhor, mesmo porque são eles que têm o contato direto, pessoal, cara a cara, com as partes, com os réus no processo penal. São os que ouvem e sentem as testemunhas. Os demais examinam apenas os autos. Até bem pouco tempo, autos de papel (denominados processos físicos). Depois, autos na tela do computador (processos virtuais). Imaginem estes processos da Lava Jato, com 10 mil, 20 mil, 30 mil… páginas, sendo lidos na tela de um computador pelos juízes de 2a. instância!!!.”

Particularmente, vejo os juízes de Primeira Instância com uma persistência parecida com a dos sacerdotes russos. Apesar de um cenário cada vez mais hostil à sua presença, uma vez que estamos nos aproximando do auge das investigações da Lava Jato, eles continuam prosseguindo em julgamentos desafiadores, sem se omitir em seus gabinetes. Como leigos, podemos não entender claramente a “liturgia” do seu trabalho, mas sabemos que o efeito de suas decisões justas têm sido um alento e ânimo para povo brasileiro.

De certa forma, eles são muito ortodoxos.

(Ortodoxo é aquele que segue fielmente um princípio, uma norma ou uma doutrina.)

*Elisa Robson é jornalista, administradora da página República de Curitiba BR e do site Movimento Mãos Limpas.

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4 comentários

  1. O povo brasileiro deve pressionar para a edição de uma Constituição Federal em que conste que só pode ser magistrado quem tiver ingressado pela porta estreita dos concursos públicos, sendo que o provimento das instâncias superiores deve ser mediante promoções dos concursados de uma instância inferior para outra imediatamente superior até chegar ao STF. Não deve haver nenhuma interferência do Legislativo e do Executivo. Vemos que o Judiciário não pode eleger deputados, senadores, presidentes da república, prefeitos e vereadores. Por que, então, presidentes da república e governadores de Estados escolhem magistrados das graduações maiores? Pensem no absurdo que é o Executivo e o Legislativo interferirem nessas escolhas. Mas temos de convir que vai por esse caminho quem quer, ou seja, entra pela janela quem opta por não competir nos concursos. Eu, sinceramente, prefiro ser juiz da primeira instância sempre a dever meu cargo aos políticos. Tenho a honra de ter sido aprovado em 2º lugar no meu concurso e não devo meu emprego a não ser a mim mesmo. Ter de agradecer a padrinhos é muita desonra. É uma verdadeira falta de dignidade!

  2. Parabéns Elisa, foi muito esclarecedor seu comentário,
    adorei e passo à admirar mais ainda esses jovens Juizes da Primeira Instância.

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