Faça amor, não faça greve.  E vote certo nas próximas eleições

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Por Elisa Robson*

Quando Evelyne Sullerot publicou o livro Le Fait (Fato Feminino), ela escreveu em sua introdução sobre uma ambiguidade que acompanha o movimento feminista: por um lado, a mulher quer os mesmos direitos que o homem, negando, muitas vezes, as diferenças biológicas que os distinguem. Por outro lado, pretende exaltar a originalidade pessoal. “O que queremos? Parecer melhor que os homens ou expressar nossa especificidade?”, perguntou-se.

A reflexão de Evelyne poderia ser completada por outra, a da historiadora Régine Pernoud:

“Tudo se passa como se a mulher, satisfeitíssima com a ideia de ter penetrado no mundo masculino, permanecesse incapaz de um esforço de imaginação suplementar, necessário para trazer a este mundo sua própria marca, o que precisamente faz falta à nossa sociedade. É suficiente imitar o homem, ser julgada capaz de exercer as mesmas funções, de adotar comportamentos e até hábitos de vestuário do parceiro? Há de se perguntar se ela está muda de admiração inconsciente em relação a um mundo masculino que crê ser necessário e suficiente, a ponto de ser copiado com maior exatidão possível.”

Os questionamentos acima convocam as mulheres a uma verdadeira reflexão sobre o seu papel na sociedade e suas conquistas. São pensamentos que levam o debate a um nível mais essencial. Pois mostram o que realmente importa: não ditar às mulheres o que devem fazer, mas sim respeitar sua liberdade; confiar nelas, convidá-las a refletir sobre por si mesmas, sobre sua missão, que se sintam chamadas a trazer algo novo, onde quer que estejam, no parlamento ou na família.

Por isso, é um tanto ridículo, por exemplo, contar quantas mulheres subiram ao Congresso, ou a qualquer outra função, como se tratasse de marcar pontos em um jogo e medir quantitativamente a promoção da mulher. Veja que se elas permanecem pouco numerosas não é simplesmente a velhos preceitos. É antes devido a outro fator.

Observe o que declarou a senadora Gleisi Hoffmann:

“Neste ano, o dia 8 de março será um dia de greves. Vamos fazer greves. Vamos fazer greves nas escolas, nas nossas casas. Estamos chamando para fazer greves nas atividades domésticas, fazer greves na área de trabalho, fazer bloqueio de estradas, fazer marchas, fazer abstenção de todo trabalho doméstico, inclusive abstenção sexual. É isso. As mulheres vão parar por um dia, como foi na Finlândia. Queremos que tenha o mesmo impacto. Lá as mulheres tiveram de parar tudo por um dia para mostrar o que elas representavam para a sociedade, senão a sociedade não nos vê. Somos invisíveis, como, aliás, já fomos nesta Casa por várias vezes, em várias discussões”.

Vejo nessa declaração a razão principal para a política ter mudado tão pouco, mesmo após se ter outorgado o direito ao voto e à elegibilidade da mulher.

No discurso de Gleisi é possível constatar porque a promoção política e profissional da mulher trouxe poucas mudanças à marcha de nossa civilização.

Reconhecer a mulher como pessoa é deixar com ela a inteira responsabilidade por suas escolhas, é respeitar sua liberdade. Mas, e os homens? Será que emudecê-los, como se todos pensassem unicamente em manter funcionando uma grande máquina inexorável que obedece cegamente às vontades masculinas, sem nenhuma preocupação com as reações femininas?

Pois, em certa medida, foi essa a sugestão da senadora petista: vamos à greve, vamos interromper nossas ações para garantir nossos direitos. Vamos cruzar os braços em tudo o que for possível.

Minha experiência é que se há uma forma de ajudar homens e mulheres nessa jornada o segredo está precisamente ao contrário da ideia de Gleisi.  É necessário uma aproximação, não um distanciamento.

E a melhor aproximação consiste no diálogo. Perder-se em discussões intermináveis, como pretendem as feministas mais polêmicas, não nos levará ao progresso. É necessário pensar em uma procura honesta para o diálogo, passo a passo, sobre qual a conduta mais justa para homens e mulheres.

Um diálogo que respeite a consciência, que seja lúcido e plenamente comprometido por ambas as partes.

Não há outro caminho para uma participação política que de fato influencie a nossa sociedade.

E, ao contrário da ordem de Gleisi, prefiro ficar com exortação de outra escritora, France Quéré, sobre a loucura a que chegou o discurso feminista: “Queremos que a mulher seja uma pessoa e lhe pedimos para agir como papagaio. Empurramos para que imite o homem, assim sua superioridade fica, como consequência, devotamente louvada”.

E, claro, recomendo: faça amor, não faça greve.  E vote certo nas próximas eleições.

*Elisa Robson é jornalista.

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