A geração que destruiu a Previdência e a sua imensa responsabilidade

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Por Elisa Robson*

Frédéric Bastiat, um inteligente deputado francês que viveu na época da Revolução de 1848, escreveu: “O Estado tem duas mãos: uma para receber e outra para dar, ou, melhor dizendo, a mão rude e a mão delicada. A ação da segunda subordina-se necessariamente à da primeira”.

O pensamento de Bastiat poderia ser a síntese perfeita do que vemos em relação à previdência social: um seguro público, coletivo e, principalmente, compulsório, administrado pelo governo. Portanto, como uma mão rude, seu pagamento é uma imposição estatal, não uma “contribuição”, como se costuma dizer.

Assim, o governo impõe um “contrato” sobre os cidadãos.

Mas isso não é o mais grave.

O esquema moderno de previdência social é concebido como um sistema de fluxo financeiro. Um recurso da parte “ativa” da população vai para a parte “inativa”. E dois problemas se destacam nesse cenário.

  1. A proporção entre as duas partes está crescendo desequilibradamente: os encargos sobre a população ativa estão cada vez mais altos. E como resultado, estamos vendo ampliar o número de necessitados ao mesmo tempo que está sendo reduzida a fatia dessa população ativa.
  2. Ao contrário do que muitos ainda pensam, o dinheiro entregue ao governo não é investido em um fundo no qual ele fica rendendo juros. Ele é repassado diretamente a uma pessoa que está aposentada. Não é um sistema de capitalização, mas de repartição: o trabalhador de hoje paga a aposentadoria de um aposentado para que, no futuro, quando esse trabalhador se aposentar, outro trabalhador que estiver entrando no mercado de trabalho pague sua aposentadoria. Ou seja, um exemplo máximo de incompetência, já que não há investimento nenhum.

E, como se não bastasse, há um terceiro fator. Esse sim talvez seja o pior de todos. A irresponsabilidade da geração que “cuidou” de previdência social até aqui e vendeu a ilusão de uma pseudo-poupança.

A geração de Sarney, Itamar (Collor), Fernando Henrique, Lula e seus respectivos ministros, com atitudes inconsequentes, desviaram um volume incomensurável de recursos da Previdência para os mais sinistros propósitos, cujo dinheiro jamais voltou aos cofres previdenciários.

Podemos buscar muitos motivos para explicar tal insensatez. Mas, de certa forma, a resposta principal não é assim tão obscura. Eles simplesmente não enfrentaram o problema previdenciário porque qualquer atuação nesse setor causa desgaste político. Então, levianamente, os governos anteriores optaram pela omissão em contar a verdade aos cidadãos, levando a população apenas àquilo que lhes interessava.

Por isso, não adianta insistir no fato de que os gastos com os aposentados aumentaram porque as pessoas passaram a viver mais. Escuto isso desde a minha adolescência, há 25 anos. O que temos que fazer é voltar 25 anos e investigar melhor por que ninguém fez os ajustes adequadamente, os ajustes graduais.

Se isso não for feito, nenhuma reforma previdenciária vai funcionar. O governo precisa explicar, claramente, como a Previdência chegou nesse estado. Não adianta fazer fórmulas matemáticas, e até mesmo miraculosas, para dizer que daqui pra frente vai dar certo e vamos consertar as coisas para os próximos 50 anos. Porque isso não vai acontecer.

Daqui a 10 anos a Previdência vai estar quebrada do mesmo jeito, porque ainda haverá má administração, roubos, desvios. Por isso, antes de tentar ganhar a opinião pública para que faça qualquer sacrifício e aceite a tal reforma, é preciso explicar porque a Previdência quebrou.

Com todas as letras.

Todavia, além das razões que comentei acima, e daquelas que o governo poderá explicar, é necessário trazer outra, que existe – e que se houver boicote à Lava Jato continuará a existir: o problema da corrupção.  Mal que, conforme estamos vendo, envolveu toda a geração anterior que esteve na cúpula do poder.

Veja apenas um exemplo.

A JBS, da Friboi, com R$ 1,8 bilhão, é a segunda maior empresa devedora da Previdência. Apesar disso, parece não estar sendo devidamente “incomodada”.

Um dos motivos, provavelmente, é porque a JBS também é uma das maiores financiadoras de campanhas eleitorais do país. Participante de esquemas fraudulentos sofisticados, ao ser alvo da Lava Jato, a empresa revelou pagamento de propinas a autoridades públicas para obtenção de recursos do FGTS. Os recursos desse fundo são bancados pelos trabalhadores e devem ser investidos em projetos de infraestrutura. O FGTS é uma fonte barata de financiamento e muito cobiçada pelas empresas. E o grupo JBS recebeu recursos do FGTS.

Sim, Frédéric Bastiat tinha razão: o Estado tem duas mãos. Pelo menos.

*Elisa Robson é jornalista

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11 comentários

  1. Toda essa conjuntura é muito bem demonstrada por uma forma tão simples do entendimento de todos – duas mãos:” uma para receber e a outra para dar”. Se formos analisar profundamente a situação do País, podemos chegar a conclusão que tudo começou com esse tal de financiamento privado de campanha. Esses governos não tem nenhuma moral, inclusive, para cobrar até judicialmente essas empresas que são seus maiores financiadores – isso tem que acabar! A exemplo da ficha limpa, poderíamos, digo, essas grandes entidades que querem a moralidade desse País, poderia lançar mais um Projeto de Iniciativa Popular, para o fim do financiamento privado de campanha.

  2. Na verdade, se é pago ,este valor deve ser investido em algo que produz ou gere renda para dali sair a aposentadoria. Para os primeiros serem aposentados passou determinado tempo, sem fazer-se pagamento de aposentação,então, quem administrou, não administrou corretamente, e deveria ser responsabilizado por isso!
    O que acontece que é sempre mais fácil, fazer a população pagar pelos desmandos do governo e de seus asseclas!

      1. Você tem razão. É o faz um Banco quando se faz uma previdência privada. Ele se baseia em cálculos atuariais pois o sistema é diferente: o seu dinheiro é que volta para você.

  3. Só sei que enquanto eles fizerem leis para privilegiar eles próprios para se defenderem dos erros que cometerem,e não pensarem no bem estar do Brasil e de todos, esse país vai mal

  4. Como a corda só arrebenta do lado mais fraco e o povo terá mesmo que pagar por isto, tenho uma idéia que resolverá boa parte do problema. Se temos mais ou menos 19 milhões de aposentados, e destes 19 milhões aproximadamente 80% fazem empréstimos consignados, por que a Previdência Social não empresta o dinheiro ao seu aposentado a juros menores e o capital retornaria aos cofres da Previdência. Imaginemos que, na média geral, cada aposentado ganha mil reais, (sei que é bem mais), e este aposentado tem 35% de margem, (350,00), que é o que ele pode pagar mensalmente de prestação, a Previdência desconta do salário dele e o capital retorna aos cofres da própria Previdência. Se você for fazer contas, é dinheiro que nem ladrão consegue contar. Por ironia no destino, ví uma pessoa muito amiga, (não consegui impedir), pegar 1.232,00 em um agente financeiro e pagar 26x 242,89. Mais de 6.000 reais por apenas 1.232,00. É não é uma loucura? Postei para o senhor Wellington Moreira Franco e o Senador Paulo Paim e os provei por a+b que o problema da Previdência será resolvido em menos de 3 anos, mas não obtive respostas. Como funciona hoje: O cidadão vai a um agente financeiro, preenche a ficha e esta é mandada para a Previdência Social. O pessoal da Previdência trabalham muito para analisar e aprovar a proposta; a DATAPREV trabalha no processamento; a Previdência desconta do aposentado e deposita para o Agente financeiro. Todos trabalham muito para o banqueiro ganhar dinheiro. Vai haver alguém que diz: Mas a Previdência não pode fazer isto. Pode sim, façam uma PEC e criem uma carteira de empréstimo na própria Previdência. Não é dificil, o problema é que talvez eles tenham rabo preso também com os agentes financeiros. O maior erro deles, é não aceitar opinião de um cidadão comum. É muita humilhação para a grande arrogância deles.

  5. Claro que isto não iria resolver o problema. mas todos os ex-presidentes, pós intervenção militar de 64, deveriam ter seu bens confiscados para repor um pouco do que foi surripiado por corrupção e má gestão dos cofres da previdência. Somente o povo trabalhador, arcar com todo prejuízo, é no mínimo injusto.

  6. Exatamente.estes assassinos.FHC.se aposentou com 38 anos de idade,e depois veio pra Televisao deboxar dos trabalhadores que dar o duro por 35 anos de contribuicao,ele ven em rede nacional dizer que quem se aposentar com 50 anos de idade será vagabundo ou vise versa.Ele foi o primeiro.

  7. “A geração de Sarney, Itamar (Collor), Fernando Henrique, Lula e seus respectivos ministros, com atitudes inconsequentes, desviaram um volume incomensurável de recursos da Previdência para os mais sinistros propósitos, cujo dinheiro jamais voltou aos cofres previdenciários.”

    A farra não pára em Sarney não! Os militares também desviaram recursos da Previdência (para construir Ponte Rio-Niterói e rodovia Transamazônica) e até Juscelino desviou dinheiro da Previdência ($ 5 bilhões, imaginem $ 5 bilhões bem investidos naquela época o que valeriam hoje) para construir Brasília!

    E é por isso que eu digo que a Previdência é a única dívida histórica que o povo brasileiro tem, portanto não concordo com o calote que estão querendo dar!

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