Não minimize o crime da carne ou o Brasil pagará um alto preço por tal negligência

Posted by

Merenda escolar

Por Elisa Robson*

Em 2013, o governo da Alemanha teve que enfrentar um grande escândalo envolvendo a descoberta de que carne cavalo havia sido utilizada no lugar de carne bovina na produção de pratos congelados.  Denunciando “um negócio sujo”, “um claro caso de enganação dos consumidores”, a ministra alemã dos Assuntos do Consumidor, Ilse Aigner, ressaltou na época que haveria uma ação rápida de muitos grupos de distribuição para que todos os produtos suspeitos fossem retirados do mercado.

A Alemanha também estabeleceu mais sanções para os produtores, maior controle na rede de distribuição e uma melhora do acompanhamento dos alimentos através dos rótulos. Aigner informou ainda que seria implementado “imediatamente” o estabelecimento de um “sistema de alarme adiantado” efetivo e uma equipe de competências por níveis administrativos – europeu, nacional e regional – para melhorar a eficiência da fiscalização.

Um plano com dez pontos prioritários foi elaborado para melhorar o controle sobre os alimentos, obrigar os distribuidores a informar sobre qualquer anomalia detectada em seus produtos e aumentar as punições legais aos fraudadores, tanto em nível econômico quanto penal.

Por fim, a ministra ainda declarou que era necessário constatar se os casos descobertos de carne de cavalo eram representativos ao alcance do escândalo ou “se isso era só a ponta do iceberg”.

Ninguém tentou minimizar o caso.

Muito menos as autoridades competentes.

***

No Brasil, há dois dias ficamos sabendo de notícias gravíssimas referentes a um problema semelhante.

Mil agentes da Polícia Federal em sete Estados e dois anos de análise criteriosa dos fatos revelaram uma extensa rede de corrupção – da qual participavam empresários e dezenas de inspetores do governo – criada para garantir a comercialização de carnes adulteradas e com data de validade vencida. Um esquema de propinas e presentes dados pelos frigoríficos a fiscais do Ministério da Agricultura fazia-os afrouxar a fiscalização e liberar a comercialização de carne estragada.

A investigação implicou mais de 30 empresas, entre elas as gigantes JBS e BRF – donas de marcas como Friboi, Sadia e Perdigão. As duas figuram entre as maiores exportadoras mundiais de carne. Além de mudar a data de vencimento e usar carne apodrecida como matéria-prima para embutidos, eles também injetaram água em frangos para alterar seu peso e mascarar a deterioração dos produtos com o uso de ácido ascórbico.

A Justiça Federal do Paraná decretou o bloqueio de R$ 1 bilhão em bens das investigadas. A Polícia Federal também cumpriu 38 mandados de prisão – 34 deles para funcionários públicos. Foram detidos, também, quatro executivos das empresas envolvidas.

Apesar de todo o extraordinário trabalho e o imenso esforço para que a atuação de tantas pessoas desonestas fosse interrompida , começaram a ganhar espaço na mídia brasileira argumentos contra a ação da Polícia Federal.

Desde especialista da Unicamp, e outras instituições acadêmicas, à imprensa e empresários do setor, passando pelo próprio ministro da Agricultura Blairo Maggi.  Todos levantaram a voz para enfatizar uma crítica à forma como a PF divulgou o caso, considerada “exagerada”.

A polícia apresentou informações não somente relevantes no sentido de trazer à população dados muito sérios sobre a detecção de carne apodrecida, como, especialmente, mostrou a todos o quão longe as garras da corrupção podem chegar.

Devo ressaltar que, muito antes de alguém se preocupar com qualquer crise econômica, sobretudo quanto à exportação de carnes e o mercado externo, é preciso ter consciência de que é o cidadão brasileiro que está sendo prejudicado em primeiro lugar.

Pouco importa se foi somente um grupo empresarial atingido, ou se “apenas” 21 fábricas foram autuadas.  Se temos pessoas cometendo crimes da ordem que foram descobertas, como alimentar crianças da rede pública de ensino com carne adulterada, os responsáveis têm que pagar por isso. Que continue a investigação e punição a todos os culpados.

Queremos ser respeitados como cidadãos, inclusive internacionalmente. E para isso o Brasil precisa ser conhecido como realmente é. Se somos uma fraude em muitas coisas, que todos saibam que somos uma fraude em muitas coisas. Não podemos continuar jogando nada mais para baixo do tapete.

Se vamos competir lá fora, que seja dentro da lei, honestamente. De maneira que possamos vencer dentro das regras. Só assim vamos melhorar nossas condições e construir um país melhor: falando a verdade.

Jamais continuar enganando.

E que possamos ter a mesma consciência da ministra alemã: ir a fundo para descobrir se esse caso é representativo ao alcance do escândalo ou “se isso é só a ponta do iceberg”.

*Elisa Robson é jornalista.

Advertisements
Anúncios

3 comments

  1. E durante os dois anos de investigação não foi tomada nenhuma medida para resolver o problema? As pessoas(principalmente as crianças no Paraná através da merenda escolar) continuaram comendo carne estragada?

    1. Não seja besta! Estamos no Brasil. Se não fosse assim, nada teria sido descoberto. E mesmo assim, essa (IN)justiça vagabunda ainda vai ser “muito boazinha” com esses canalhas. Se tivessem prevenido as coitadas das crianças que sofreram, tudo resultaria em nada e todo o resto das crianças do país, já nascidas e por nascer iriam comer PRA SEMPRE carne estragada. Infelizmente, nesse país de latrina que somos, tem que ser assim mesmo. Acorda!

Deixe uma resposta