Prejuízo bilionário nas exportações de carne. Quem disse que a corrupção não tem custo?

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Por Elisa Robson*

“Não era possível que, depois de tanto trabalho, fôssemos pegos de calças curtas”.  Essa foi precisamente uma das declarações mais recentes do Ministro da Agricultura, Blairo Maggi. Ele se referiu ao fato de ter sido surpreendido com a deflagração da Operação Carne Fraca, pela Polícia Federal, ocorrida na sexta-feira passada, 17.

A maior operação da PF, que envolveu mil agentes, descobriu o enriquecimento ilícito de fiscais do ministério da Agricultura, mediante pagamento de propina em forma de dinheiro, apartamentos, propriedade rural e até mesmo carros de luxo. Indícios graves sobre práticas criminosas recaíram sobre, nada menos, que 21 empresas do setor que participaram do esquema a fim de conseguirem facilidades na liberação de carnes.

Detalhes sobre a maquiagem de carnes vencidas e práticas proibidas para aumento do lucro estão descritos em um relatório da justiça de 356 páginas. Segundo a PF, os frigoríficos envolvidos na Operação maquiavam carnes vencidas e as reembalavam para conseguir vendê-las.

As investigações colocaram em xeque o sistema de fiscalização sob o comando de Daniel Gonçalves Filho e Maria do Rocio Nascimento, considerados chefes do esquema fraude. Assim como foi preso o gerente de Relações Internacionais e Governamentais da BRF (Brasil Foods), Roney Nogueira dos Santos, que remunerava diretamente fiscais contratados, presenteava-os com produtos da empresa e se dispunha a auxiliar no financiamento de campanha política. Com tantas benesses, há notícia de que ele possuía login e senha para acessar diretamente o sistema de processos administrativos do Ministério, obviamente de uso restrito ao público interno.

Todas essas informações foram divulgadas com a decisão do juiz Marcos Josegrei da Silva, da 14ª Vara Federal de Curitiba, que autorizou o cumprimento dos mandados de prisão e busca e apreensão.

O relatório do juiz apontou que para tentar burlar a possível fiscalização eram adotadas algumas estratégias, como trabalhar em horários alternativos, durante a noite. Há, por exemplo, a utilização da carne de cabeça na fabricação de linguiça, prática vedada. Presunto considerado “mais ou menos putrefato” foi normalmente usado, já que foi considerado sem cheiro ruim, o que poderia inviabilizar seu aproveitamento. “Outras substâncias”, como relatado pelo juiz, também foram utilizadas na fabricação dos produtos.

O próprio magistrado se espantou com a naturalidade com que os envolvidos no esquema trataram da utilização de carne contaminada na produção dos derivados. Em um trecho o juiz afirma que “chega a causar náuseas” a forma como é definida a utilização de carne de peru com salmonela para fazer mortadela. Os fiscais Carlos Cesar e Carlos Augusto Goetzke aparecem em diálogos dizendo que precisariam ir até o frigorífico Santos para liberar a carga de 18 toneladas de carne, mesmo sabendo que elas estavam contaminadas. O produto seria, por fim, usado para ser misturado e usado para o embutido.

Todo o trabalho da Polícia Federal nos mostrou, mais uma vez, o grande desafio que será para o Brasil sair da atual recessão tendo um sistema tão corrupto e insalubre. O fato de a corrupção estar profundamente enraizada nas estruturas políticas, sociais e econômicas do nosso país faz com que seja mais difícil ainda cumprir nossas obrigações perante o mercado internacional.

Apenas um exemplo.

A indústria da carne brasileira exporta o equivalente a US$ 12 bilhões por ano, de acordo com a Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). Em 2016, só de carne bovina foram gerados US$ 5,5 bilhões, com as 1,4 milhão de toneladas enviadas a 150 países, segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec).

O maior comprador é Hong Kong – região administrativa especial da China -, que importou 330 mil toneladas, gerando US$ 1,1 bilhão para o Brasil. Na terça-feira (21), autoridades sanitárias do Japão e de Hong Kong suspenderam a exportação de carne brasileira, na esteira de restrições já impostas por China, Chile, União Europeia e Suíça.

O fato é que investidores externos não querem ter de lidar com um esquema tão corrupto.  E isso cria uma instabilidade totalmente perceptível: não há qualquer possibilidade real de crescimento econômico para um país afundado em corrupção.

(Fora o fato de termos que assistir um ministro assustado declarando que “foi pego de calças curtas” e sugerindo que a polícia foi a grande responsável pelas consequências no campo comercial. O que, evidentemente, não foi.)

Portanto, a melhor coisa que pode ser feita é mostrar ao mundo que o que impede a corrupção de se espalhar ainda mais pelo nosso país é o fato de termos um sistema que está sendo restringido por um sistema ainda maior: o trabalho da Polícia Federal, como a Operação Lava Jato e a Operação Carne Fraca que estão inibindo fortemente as práticas corruptas.

Além disso, está mais do que na hora de entendermos que a corrupção que perpassa todo o Brasil — do governo aos empresários — está tão profundamente arraigada, que, se nada for feito por órgãos como a Polícia Federal, será praticamente impossível qualquer recuperação econômica.

E, finalmente, se esse sistema indesejável não puder ser modificado, os brasileiros terão de mudar a única coisa que ainda podem mudar — o lugar em que vivem.

Elisa Robson é jornalista.

 

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One comment

  1. Parabéns, mas deveria ser toda a operação em segredo de justiça. Isso tudo vai sobrar para o mais fraco da cadeia. O produtor

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