Em 2014, a ordem era doar tudo para campanha de Dilma, diz Marcelo Odebrecht sobre dinheiro de caixa 2

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O empreiteiro Marcelo Odebrecht afirmou em seu depoimento ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que a ex-presidente Dilma Rousseff tinha conhecimento do uso de dinheiro de caixa dois para pagar o marqueteiro João Santana, responsável por sua campanha à reeleição em 2014. Ele também relatou que uma ordem dado por Guido Mantega orientava que todo o dinheiro não fosse mais para o PT, mas somente para a campanha de Dilma.

Trechos do depoimento que incriminam Dilma e outros petistas — como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os ex-ministros Antonio Palocci, Guido Mantega e Paulo Bernardo — foram divulgados nesta quinta-feira pelo site “O Antagonista”.  Nesses trechos, há apenas uma menção ao presidente Michel Temer, que foi vice de Dilma até ela sofrer o impeachment, no ano passado. Como Dilma não é mais presidente, na prática a ação em curso no TSE pode levar à cassação do mandato de Temer. Mas o empresário negou ter tratado de repasse de dinheiro para campanhas diretamente com o presidente. Segundo Marcelo Odebrecht, a negociação foi com um aliado próximo de Temer, o atual ministro da Casa Civil Eliseu Padilha.

— A Dilma sabia da dimensão da nossa doação, e sabia que nós éramos quem doa… quem fazia grande parte dos pagamentos via caixa dois para João Santana. Isso ela sabia — disse Marcelo Odebrecht no depoimento prestado em 1º de março.

O ministro Herman Benjamin, relator da ação no TSE, questionou então se Marcelo Odebrecht alertou Dilma sobre pagamento por caixa dois.

— O que Dilma sabia era que a gente fazia, tinha uma contribuição grande. A dimensão da nossa contribuição era grande, ela sabia disso. E ela sabia que a gente era responsável por muitos pagamentos para João Santana. Ela nunca me disse que ela sabia que era caixa dois, mas é natural, é só fazer uma… Ela sabia que toda aquela dimensão de pagamentos não estava na prestação do partido — respondeu.

Em outro trecho, Marcelo afirmou que também não tratou diretamente com Dilma sobre valores, mas com o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega.

– O Guido teve uma conversa comigo e disse: “Marcelo, a orientação dela agora é que todos os recursos de vocês vão para a campanha dela. Você não vai mais doar para o PT, você só vai doar para a campanha dela, basicamente as necessidades da campanha dela: João Santana, Edinho Silva (tesoureiro da campanha) ou esses partidos da coligação.

Na campanha de Dilma em 2014, Marcelo Odebrecht relatou que acertou o pagamento de R$ 177 milhões com Guido Mantega. Isso inclui os R$ 50 milhões não doados em 2010 e que ficaram para a campanha seguinte, outros R$ 100 milhões específicos para 2014, e mais uma parcela de R$ 27 milhões que, segundo ele, foi usada em grande parte antes mesmo da eleição. Ainda de acordo com o empresário, ao falar de Palocci, entre 2008 e 2014, foram acertados R$ 300 milhões. Não ficou claro se os R$ 300 milhões dizem respeito apenas a Palocci, ou se incluem também os valores acertados com Mantega.

Marcelo Odebrecht relatou ainda um pedido de R$ 64 milhões feito antes mesmo da eleição de 2010 pelo então ministro do Planejamento Paulo Bernardo. Em troca, a empresa conseguiu a aprovação de uma linha de crédito para a empresa.

— No assunto dos 64, que foi gasto antes mesmo da eleição de 2010, para aprovar a linha de crédito, o Paulo Bernardo solicitou R$ 64 milhões. Na verdade eram US$ 40 milhões, que depois eu baixei para 36, que, transformando em reais, foi R$ 64 milhões.

Ele também disse achar que parte do dinheiro usado para comprar o apoio da base a Dilma em 2014 também saiu de caixa dois. Segundo Marcelo Odebrecht, isso foi feito a pedido de Mantega. Os recursos saíram da “conta” da Odebrecht destinada a atender os pedidos do ex-ministro.

— Se eu não me engano, uma parte disso foi de caixa dois. E esse recurso sai também dessa minha conta corrente.

Ele afirmou ter alertado Dilma Rousseff de que os pagamentos feitos a João Santana em contas no exterior, sem registro oficial, poderiam resvalar na Lava-Jato. Segundo o empreiteiro, a presidente não teria dado importância ao alerta.

— Eu alertei ela e vários outros assessores dela — disse o empreiteiro.

Marcelo contou que também alertou Mônica Moura, mulher do marqueteiro, em 2015, sobre a forma como os pagamentos eram feitos. Segundo o depoente, os pagamentos estariam “contaminados”, porque não estavam contabilizados oficialmente. Na época, ainda segundo o empreiteiro, Mônica teria dito a ele para não se preocupar, porque a maior parte do dinheiro era referente a serviços prestados pelo marido em outros países, sem relação com a campanha presidencial.

— Eu acho que esse argumento que a Mônica usou pra mim ela usava com a Dilma e com vários outros interlocutores, aí quando eu ia falar com eles, eles não se mostraram tão preocupados — disse no depoimento.

Em outro trecho do depoimento, Marcelo Odebrecht negou que tivesse tratado de repasse de dinheiro para campanhas diretamente com o presidente Michel Temer em um jantar no Palácio do Jaburu. O empreiteiro disse que a negociação ocorreu antes disso, entre o ex-executivo da Odebrecht Claudio Melo e o atual ministro da Casa Civil Eliseu Padilha.

— O jantar, na verdade, foi o ´shaking hands´. Na verdade, semanas antes do jantar, o Cláudio Melo me ligou e disse que havia uma solicitação de R$ 10 milhões que o Padilha havia feito, para apoiar candidatos do Temer, do grupo do Temer, digamos assim. E eu, como sempre fiz com o Cláudio Melo, e todos os empresários do grupo sabem disso, eu disse: Cláudio, você tem que procurar um empresário do grupo que esteja disposto a fazer este apoio, certo? E ele foi procurar algum empresário do grupo que tivesse disposto a fazer este apoio — disse o delator ao TSE.

Marcelo também afirmou recebeu do presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, pedido de apoio na campanha para o governo de São Paulo no valor de R$ 6 milhões. Segundo o empresário, o pedido de Skaf não tinha nada a ver com a negociação sobre os candidatos apoiados por Temer. Mas o próprio Marcelo teria sugerido que Skaf angariasse o apoio de Temer, para que o valor entrasse no mesmo pacote.

— Em determinado momento, ele (Skaf) até me colocou numa ligação celular com Michel, que ele falou: “Marcelo, tem alguém aqui querendo falar com você”. Aí eu atendi, era o Michel, e falou: “Marcelo, a importância de apoiar [conversa totalmente institucional], a importância de apoiar o Paulo”. Aí, falei: “Sim, presidente, pá, pá”, desliguei o assunto — contou o Marcelo Odebrecht.

Depois de tudo acertado, houve o jantar no Jaburu:

— Só que num jantar com o vice-presidente, até pela liturgia do cargo, as coisas se resolvem antes. Então, Cláudio já havia acertado com o Padilha antes que seria 10 e seria 6 para Paulo Skaf. Quando eu cheguei lá na casa do Michel Temer com o Cláudio, teve até uma primeira conversa — eu, ele e o Padilha —, que ficou mais ou menos acertado isso. Depois teve o jantar com o Michel, que foi um jantar institucional, até pela liturgia do cargo, eu nunca faria a falta de educação de mencionar valor.

O empresário disse ainda que pagava um “conforto” a João Santana, em razão dos problemas comuns em várias campanhas políticas, em que o marqueteiro fica sem receber parte do combinado.

— Todo o marqueteiro tinha um problema com campanha, de você fazer a campanha e depois você paga. E aí, começou um processo, lá atrás, estou falando de 2008, onde eles procuravam acertar com a gente um valor e a gente dar um conforto a João Santana, que ele recebia.

Marcelo Odebrecht também relatou que, a pedido de Mantega, repassou dinheiro a um veículo de comunicação aliado do governo.

A assessoria de imprensa da ex-presidente divulgou nota intitulada “Não adianta lançarem novas mentiras contra Dilma Rousseff”. O texto afirma que a petista “não tem e nunca teve qualquer relação próxima com o empresário Marcelo Odebrecht, mesmo nos tempos em que ela ocupou a Casa Civil no governo Lula”. A nota também diz que Dilma “sempre manteve uma relação distante do empresário, de quem tinha desconfiança desde o episódio da licitação da Usina de Santo Antônio”.

A assessoria também declarou que a ex-presidente “jamais pediu recursos para campanha ao empresário em encontros em palácios governamentais, ou mesmo solicitou dinheiro para o Partido dos Trabalhadores”. Ainda no texto, a assessoria desafiou Marcelo Odebrecht a produzir provas contra a petista para sustentar as acusações. “Não basta acusar de maneira leviana”, afirmou.

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