Palocci deu aos brasileiros um grande dia da Pátria

 

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Por Elisa Robson*

Viktor Frankl, sobrevivente de um campo de concentração nazista, expressou muito bem uma grande crise enfrentada por quem sofre: a crise de sentido. “O desespero”, disse ele, “consiste em sofrimento sem sentido”. Tal reflexão nos leva a uma pergunta interessante: numa sociedade como a nossa, saturada de conforto, que significado pode se atribuir sofrimento?

Geralmente, atribuímos apenas um “sentido” negativo.

Os brasileiros têm passado por períodos especialmente difíceis após a descoberta de que uma incrível rede de corrupção governou o país nos últimos anos. E, não bastasse vir à tona uma enorme podridão sobre os fatos, o Brasil está recebendo, dia após dia, informações cada vez mais consistentes e detalhes sórdidos de como tudo funcionava.

Um dos episódios mais marcantes, sem dúvida, foi o depoimento de Antonio Palocci, ex-ministro da Fazenda e um dos homens fortes e de confiança de Lula e do PT. Pela primeira vez, ele confessou crimes cometidos no bilionário esquema de corrupção descoberto na Petrobras pela operação Lava Jato.

Palocci falou por duas horas ao juiz Sergio Moro no feriado de 7 de setembro. Ele confirmou algumas das acusações feitas contra o ex-presidente pelo Ministério Público Federal. Contou que a reforma do sítio de Atibaia, a compra de um terreno de R$ 12 milhões para ser sede do Instituto Lula e de um apartamento em São Bernardo do Campo (SP) foram propinas pagas pela Odebrecht.

O petista disse que, ao praticar os crimes, foi uma engrenagem em que o beneficiário maior era Lula.

Ele também citou um acerto de R$ 300 milhões entre Emílio Odebrecht e o ex-presidente. Afirmou ainda que na troca dos governos Lula e Dilma, em 2010, Emílio buscou Lula e fez um “pacto de sangue” com ele. O “pacto”, disse, era formado por um “colegiado” — do qual o próprio Lula fazia parte. O ex-ministro disse que havia reuniões até no apartamento do ex-presidente.

Embora tudo isso seja de suma importância para punir os grandes responsáveis pela corrupção sistêmica implantada no Brasil, todos concordam que tais descobertas trazem um sofrimento imenso. A dor da vergonha pública, de saber o quanto foi sujo e perverso o que os governantes que elegemos fizeram com os recursos da população, ficará marcada para sempre.

Contudo, é importante lembrar que o sentido do sofrimento nem sempre é negativo, como pode parecer. Por exemplo, as provações desenvolvem o caráter; a pobreza purifica da ganância; o fracasso ajuda-nos a curar da ambição mundana. Ou seja, o sofrimento pode ser transformado, e até redimido.

O depoimento de Palocci, ao mesmo tempo que confirma muitas informações levantadas, poderá registrar uma mudança sísmica em nossa relação com essa história. Se, a princípio, queremos que o sofrimento seja removido o mais rápido possível, tenho certeza de que, aos poucos, estamos sendo “catequizados pela aflição”. Talvez como uma barra de ouro derretida que, por meio do refino do fogo do sofrimento, é transformada em ouro puro.

O Brasil vai sair melhor depois disso tudo.

E, claro, no final das contas, Palocci deu aos brasileiros um grande dia da Pátria.

*Elisa Robson é jornalista e administradora da página República de Curitiba BR.

 

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1 comentário

  1. DIFERENTEMENTE DA SOLIDÃO DE ROBINSON CRUSOÉ, um conto de aventuras, solidão e resistência de um náufrago, lá pelos idos de 1700, A LINDA JORNALISTA ELISA ROBSON NOS TRAZ UMA HISTORIA CRUEL E REAL DOS HOMENS DE HOJE – 2018… Crusoé podia sofrer de solidão os bens humanos que nao veria mais…. os de hoje não sofrem de vergonha, de nenhuma dor de matar pessoas por seus roubos, são descarados, infames, sem brio. Obrigada Elisa por sua forma de retratar a mais dura realidade. Cabe a nós, de posse dessas informaççoes tomarmos vergonha na cara também e, doravante, não acreditar mais no homem público…. De boa estirpe o percentual é quase ZERO.

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