O candidato jogado às feras

 

fera

 

Por Elisa Robson*

No ano de 79 da Era Cristã, o imperador Tito inaugurou o Coliseu. Na época, Roma tinha acabado de passar por três grandes catástrofes: uma erupção do Vesúvio, um surto de peste e um incêndio que destruiu muitas construções pela cidade. Por isso, assim como fazem muitos governantes, o imperador inaugurou o famoso símbolo do Império Romano ainda inacabado. O grande anfiteatro precisava receber os jogos dos anos 80, que por sua vez serviriam para acalmar e distrair a população.

Sobre a sua arquitetura, ainda hoje é possível identificar os corredores que levavam às arquibancadas. Eles foram projetados para criar acessos exclusivos para as diferentes classes sociais da época. Enquanto os senadores de Roma sentavam bem próximos da arena de combate, as pessoas de baixa renda, por exemplo, podiam ocupar o último piso do estádio. Foi nessa época que surgiu a “política-do-pão-e-circo”.

De acordo com historiadores, no local eram disputados os históricos combates de gladiadores, lutas entre animais, várias execuções e inúmeras caçadas humanas. Mais de 10 mil gladiadores morreram em três séculos de combates, duelando entre si ou enfrentando animais ferozes. O Coliseu também foi palco de sacrifícios de cristãos quando estes eram perseguidos pelos romanos.

O espetáculo da morte de um cristão imóvel, de olhos erguidos para o céu, era o mais estranho oferecido no Coliseu e, portanto, reservado para o final.  Os animais usados nos espetáculos, como leões africanos, percorriam um intricado caminho do subsolo à arena. Eles surgiam no espaço de combate pela abertura de um alçapão.  Os cristãos eram mortos a fim de divertir a população.

As carcaças eram retiradas com ganchos, a arena ensanguentada era coberta com uma nova camada de areia, borrifava-se uma camada de perfume forte e uma procissão entrava na arena. Homens fortes postavam-se diante do imperador e, a uma só voz, gritavam a saudação que ecoava pelo estádio: “Ave César! Os que vão morrer te saúdam!”

Este longo e sombrio capítulo da história dos romanos poderia servir de analogia ao que estamos vendo na imprensa brasileira hoje.

Como o Coliseu, a mídia oferece à população um verdadeiro espetáculo de horrores quando elege um determinado político para ser “jogado às feras” das suas reportagens leoninas. Antigamente, evitar a tendência e trabalhar com a imparcialidade era algo que os meios de comunicação respeitáveis ​​se orgulhavam. E isso ainda é louvável, pois um debate sólido é vital para uma mídia saudável e, por extensão, uma sociedade informada. Mas quando o peso da parcialidade surge de forma incontestável, e o veículo jornalístico se dirige obstinadamente para um dos lados, isto resulta em uma impressionante cobertura enganosa de um fato.

Há também um outro nome que damos para este tipo de produção:  “a espetacularização da notícia”, ou seja, é quando a notícia serve de espetáculo para o público, e não serve para informá-lo. Na verdade, trata-se de uma aposta em um tipo de “entretenimento” bizarro. Por isso, é mais ou menos como a motivação que alimentava a cúpula de Roma.

Capas de revista como as produzidas pela Veja e Istoé, em que se propõem a fazer uma reportagem sobre determinado personagem político (no caso, o presidenciável mais competitivo do momento, Jair Bolsonaro), conseguiram trazer uma visão excepcionalmente parcial e distorcida no tratamento da informação.

O resultado, portanto, passa longe de favorecer a reflexão e contribuir para uma aproximação maior entre o cidadão e a política. O que é lamentável, pois, é a reflexão política que contribui para o aperfeiçoamento da democracia. Não o espetáculo.

A página República de Curitiba BR, da qual sou editora, é um veículo de opinião, e não de noticiário simplesmente. Por isso, a cada matéria compartilhada, inserimos uma crítica sobre a notícia. Isso significa que temos um lado. Mas é um lado claro e evidente aos nossos seguidores.  Aqui você tem um elemento importante e diferenciado dos veículos tradicionais: defendemos a transparência. E não só isso: uma transparência acompanhada das características do jornalismo sólido: verificar fatos, atribuir com precisão, descobrir novas informações e expor as informações falsas.

Revistas e jornais, como a Veja e a Istoé, ao invés de tentarem confundir o leitor com um falso equilíbrio de informações, deveriam ponderar sobre expor seus posicionamentos de forma aberta, e não dissimuladamente.

É a transparência que dá ao leitor a rápida identificação de que o jornalismo que praticamos favorece a forte análise, a opinião, um ponto de vista e a defesa direta e objetiva por um lado do debate. E também é o que dá o ethos de um trabalho de comunicação social.

E isso difere ligeiramente dos métodos que a mídia tradicional vem aplicando, em que tentam ganhar a audiência do público por meio de uma abordagem parcial velada e obscura sobre um determinado posicionamento.

Felizmente, apesar do Coliseu moderno, a audiência digital não é passiva. No meio virtual, ninguém mais consome informação passivamente e assiste ao show sentado na arquibancada sem protestar. O público tem reagido cada vez mais e interrompido o espetáculo de horrores.

Para o azar de quem financia a política do pão e circo moderna.

*Elisa Robson é jornalista e professora do curso Mídia & Política, que será lançado pela página do Facebook República de Curitiba BR. Mais informações estarão disponíveis a partir do dia 23/11 no site: http://www.elisarobson.com.br/

 

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4 comentários

  1. Prezada Jornalista e Professora. Também sou professor, de Administração, e Consultor Organizacional há mais de 25 anos. Já questionei, ainda sem resposta, se este site representa fielmente às posições dos procuradores e demais destacados no alto desta pagina. Se for, todos eles apoiam a candidatura do Bolsonaro? Esta a impressão que delevelmente passa. Se não for, porque usa a imagem deles em seu marketing? Já fui o candidato mais jovem ao Executivo local, e usei como marketing, até porque que não tinha muitos recursos financeiros, que estava iniciando minha carreira rumo à Presidência da República. A imprensa local publicou charge me colocando ao lado do Dr. Ulisses Guimarães e outros presidenciáveis, mas ainda ouço gente me dizendo se não poderia ter sido um presidente/líder melhor da nossa Nação.

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  2. Já eu, entendi bem que a reflexão é sobre a dissimulação da “informação”.
    Entendo também que a imagem do blog é de apoio à força tarefa contra a corrupção e nada tem que ver com a opinião das notícias.
    Nem precisei ter um currículo invejável…

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  3. Não sou professor, nem jornalista ou advogado, sou apenas um ignorante de muita coisa, cidadão minimamente consciente, profissional responsável e honesto por mais de 44 anos, conhecedor de todos os cantos e recantos desse País e de diverso países para saber avaliar a grandeza de nosso povo humilde e trabalhador que merece uma GOVERNANÇA SOCIAL PROGRESSISTAS DEMOCRÁTICA!

    Muitas informações repassadas pela “jornalista” Elisa Robson são interessantes do ponto de vista de esclarecimentos de notícias que dizem respeito aos bandidos que deram o golpe no decorrer de 2016 contra uma presidenta eleita simplesmente por pretensas pedaladas cometidas desde a proclamação da república com muito mais intensidade, mostrando a falsidade dos objetivos deles, todos corruptos ladrões do estado.

    Todavia ela só o faz na medida que interessa para a direita conservadora e retrógrada do Brasil, sempre manipulando a política e a economia brasileira para acumulação de mais e mais riquezas nas mãos da elite predatória nacional e externa. Por exemplo, dizer que Temer e seus apoiadores do PMDB (MDB)/PSDB estão fazendo um governo de “meio-esquerda”, além do próprio título dado “República de Curitiba” com a foto dos INTOCÁVEIS procuradores, além de contundentes críticas à esquerda, já permite entender sua linha de ação, sua verdadeira intenção: defender a candidatura de um filhote da Ditadura Militar, o nazi-fascista do Bolsonaro, através da DISSIMULAÇÃO da notícia com a desculpa de estar fazendo jornalismo verdade.

    Acreditaria um pouco mais nas intenções de Elisa Robson se usasse, por exemplo, somente Movimento Avança Brasil, mas no momento que nomina uma absurda e utópica República de Curitiba, já mostrou claramente que não está sendo coerente com o que descreve no site. Além do mais me trás à lembrança a Guerra da Farroupilha ou Farroupilhos que pretendia a formação de um país independente mas teve que se submeter à força a um acordo. Mostra que o sentimento dos farroupilhas se deslocou até o Paraná com vistas a um plebiscito sulista (proibido pelo Tribunal Eleitoral). É mister entender que até hoje os gaúchos ainda se celebram a Revolução Farroupilha, todavia, supondo que houvesse uma separação do Paraná até o Arroio Chui, o Brasil poderia repatriar todos os gaúchos, catarinenses e paranaenses espalhados por todo o Brasil. Com certeza, seria muito difícil ter espaço para tantos repatriados!

    Para finalizar, vi uma msg da editora da utópica República, onde ela reclama da necessidade de EXISTIR MAIS JORNALISTAS DE DIREITA no País! Como assim, professora jornalista Elisa Robson? Afinal, jornalista e/ou repórter não fazem um juramento de ética para retratar, informar a notícia como ela é de fato? Tem que ser com visão direitista como a sua? Outrossim, juízes de todas as instâncias, procuradores, Ministério Público e Polícia Federal não precisam de defensores, basta que cumpram os preceitos CONSTITUCIONAIS apesar da CN 1988 estar aos rebotalhos e às leis e normais legalmente constituídas, pois são apenas e tão somente FUNCIONÁRIOS DO ESTADO BRASILEIRO com “obrigação de fazer”.

    Posso estar redondamente enganado sobre suas intenções, portanto estou aberto a receber esclarecimentos professora jornalista Elisa Robson, editora da República de Curitiba.

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