Estamos formando, há séculos, uma horda de analfabetos funcionais

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por Dennys Garcia Xavier*

 

Dizia-se na Antiga Grécia que a falência do sistema ético de uma dada sociedade evocaria sempre, em todos os casos, um seu último “dique” de proteção, uma espécie de núcleo invencível do correto agir humano: a vergonha. Isto quer dizer, em outras palavras, que ainda que um indivíduo particular não respondesse mais a estímulos impositivos de um determinado princípio moral, socialmente compartilhado, ele teria que responder sempre à reprovação do olhar do “outro”: do seu vizinho, da sua esposa, dos seus filhos, tios, amigos…ou mesmo de outras comunidades. Parece e é óbvio: trair, mentir, roubar, em suma, desviar-se ou falhar diante de um compromisso moral é algo muito mais simples quando feito “às escondidas”, longe – para parafrasearmos o filósofo Sartre – do “inferno” que são os outros, do terrível julgamento alheio.

A pergunta que se impõe é: e quando a vergonha falha? O que nos sobra? O que resta de um homem ou de uma sociedade dispostos a ignorar um sentimento que deveria causar, no mínimo, enorme desconforto?

Aqui, a reflexão que proponho tem específica razão de ser: o MEC acaba de publicar uma pavorosa avaliação sobre a qualidade dos cursos superiores do país (se de “qualidade” podemos falar). Segundo o documento publicado, apenas 1,9% dos cursos de graduação tiveram nota máxima do órgão governamental responsável  pela avaliação. Isso mesmo…menos de 2% dos cursos de graduação da Zumbilândia têm “alta qualidade”…e isso segundo os padrões, dos quais nem sempre podemos nos orgulhar, do próprio Governo! As notas vão de 1 a 5. O levantamento mostra que 0,4% dos cursos (15) tiveram nota 1; 7% (293), nota 2; 50,5% (2.117), nota 3; 40,3% (1.690), nota 4; e 1,9% (81), nota 5.

Mas a coisa não para por aí: faz rir a condescendência do próprio MEC com os números apresentados. As declarações são sempre emblemáticas: “não é bem assim…”, “temos que levar em consideração que…”, “parece ruim, mas…”. É um show deplorável de retórica eufemística.

Gostaria muito de dizer que o estudo reflete manipulação ideológica de mídia conservadora, ou ainda que os números foram forjados por “coxinhas”, por elite branca opressora ou coisa parecida. Mas não, são dados do próprio Governo Federal. A verdade é uma só: a não ser que aconteça uma revolução educacional neste país, estamos condenados a errar pela história como o que temos sido até hoje, uma eterna promessa, um projeto falido, um “querer ser” sem futuro tangível.

Muitas vezes me pergunto se, afinal de contas, não somos mesmo um povo intelectualmente medíocre, conformado, indolente…algo como escravos de uma deplorável “natureza” impossível de ser removida. Chego a me questionar se a mágica mistura de raças e influências que nos trouxeram até aqui não nos condenou a sermos uma espécie de mão-de-obra útil para o resto do mundo, incapaz de se inconformar com uma condição tal qual aquela retratada pelos números em questão (e tantos outros, que nos colocam entre os piores sistemas de ensino do mundo). Estamos formando, há séculos, uma imensa horda de analfabetos funcionais…e continuamos a dormir em berço esplêndido, esperando, sei lá, pelo próximo carnaval.

Compreender que o nosso maior entrave atende pelo nome de “educação” é, em meu modesto parecer, o primeiro passo a ser dado nesta longa jornada que se nos impõe.

É preciso recuperar a capacidade de sentirmos vergonha, seja individualmente, seja enquanto nação. Por enquanto, como de costume, resta-nos a esperança…e sabemos bem o quanto é triste viver de esperança. Que vergonha!

 

*Dennys Garcia Xavier é Coordenador Nacional do UniLivres.  Professor Associado de Filosofia Antiga e Ética da Universidade Federal de Uberlândia. Tem Pós-doutorado pela Universidade de Brasília (UnB) e pela Universidade de Coimbra.

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