A Amazon cancelou planos de construir uma sede em Nova York que teria criado pelo menos 25 mil empregos com altos salários, nesta quinta-feira (14), por causa da resistência de políticos locais, sindicatos e ativistas comunitários que disseram que o projeto, inicialmente saudado como um triunfo econômico, era um péssimo negócio.

“Há várias pessoas que se opõem à nossa presença”, disse a porta-voz da Amazon, Jodi Seth. “Não achamos que há como avançar em termos de trabalhar com eles a longo prazo”.

Enquanto o governador Andrew Cuomo e o prefeito Bill de Blasio, ambos democratas, celebravam o projeto, e as pesquisas de opinião mostravam que a grande maioria estava a favor dele, uma grande repercussão negativa rapidamente apareceu.

Os oponentes, incluindo a novata representante da Câmara Alexandria Ocasio-Cortez, democrata, contestaram que o fluxo de funcionários da Amazon, que teriam um salário médio de pelo menos US$ 150 mil (cerca de R$ 555 mil) por ano, faria os custos de habitação dispararem, expulsando os moradores de baixa renda, além de agravar o congestionamento no metrô e nas ruas.

Eles também se opuseram aos US$ 3 bilhões em incentivos estaduais e locais prometidos à Amazon, a empresa mais valiosa do mundo, chefiada por Jeff Bezos, a pessoa mais rica do mundo, que também é dono do jornal The Washington Post.

Ocasio-Cortez – que atraiu a atenção nacional por seus pontos de vista progressistas e cujo distrito eleitoral faz fronteira com o local proposto para a sede da Amazon – elogiou a retirada da empresa.

“Hoje foi o dia em que um grupo de nova-iorquinos e seus vizinhos derrotaram a ganância corporativa da Amazon, a exploração dos trabalhadores e o poder do homem mais rico do mundo”, ela tuitou.

Cuomo expressou profundo desapontamento e colocou a culpa no que chamou de “um pequeno grupo de políticos (que) colocam seus próprios interesses políticos acima de sua comunidade”.

O governador, que brincou dizendo que mudaria seu nome para “Amazon Cuomo” para ganhar o acordo, disse que o projeto teria arrecadado quase US$ 30 bilhões em receitas – um retorno de 9 para 1 sobre os subsídios – e ajudado a diversificar a economia de Nova York para além de imóveis e finanças.

Esquerda emergente 

Nos dias após a notícia de que a Amazon tinha escolhido o Queens para a sua cobiçada sede em troca de centenas de milhares de dólares em subsídios, as reações negativas começaram a surgir na esquerda reenergizada de Nova York. Logo as contestações cresceram, juntamente com a lista de queixas.

“É como receber uma oferta de casamento junto com uma confissão de infidelidade”, dizia um artigo de opinião no New York Times assinado pelo congressista Ron Kim, de Nova York, e Zephyr Teachout, um professor de direito popular entre os progressistas.

“Apesar das promessas familiares, a Amazon não é uma boa parceira. Nem para as cidades que ocupa, nem para os comerciantes que dependem dela, nem para os trabalhadores que emprega. A empresa não busca parceria, busca o controle”.

A Amazon, quer tenha antecipado a reação ou não, havia entrado em uma tempestade política: um caldeirão de energia progressista estimulado por ressentimentos latentes, tanto locais como nacionais, que estavam se formando exatamente quando o plano se aproximava. E com o anúncio da empresa na quinta-feira de que estava abandonando o plano da sede em Nova York, ficou claro que aqueles ventos contrários se tornaram fortes demais para a empresa querer continuar.

A decisão é uma demonstração de força da ala esquerdista que ressurge em Nova York, uma constelação de legisladores recém-eleitos, grupos ativistas tradicionais e cidadãos engajados que colaboraram para se opor ao acordo tal como foi interpretado.

“Espero que este seja o início de uma conversa sobre o capitalismo abutre e onde é melhor gastar os nossos impostos”, disse o presidente da Câmara, Corey Johnson, em um comunicado.

“Eis uma empresa que concentrou tanto poder que eles acham que podem ditar aos estados e cidades o que eles têm permissão para dizer à sua população, o quanto de dinheiro dela eles querem levar, para nos agraciar com sua presença”, o senador Mike Gianaris disse a repórteres.

Grupos ativistas expressaram surpresa pelo fato de a empresa ter abandonado o acordo tão rapidamente.

A esquerda pode ter dado um tiro pela culatra 

Para Conor Sen, colunista da Bloomberg Opinion, esse episódio é o mais recente em uma série ruim de eventos que sugerem que os progressistas têm exagerado as suas cartadas. “Ao mesmo tempo em que os progressistas podem estar com as energias renovadas após o sucesso eleitoral nas eleições de novembro, eles não têm o mandato eleitoral que eles acreditam ter, e eles ainda têm que responder como eles pretendem implementar sua agenda ambiciosa com pouco resultados para mostrar até hoje”, disse em sua coluna.

O ciclo de notícias negativas para os progressistas teria começado com a proposta do Green New Deal, de Alexandria Ocasio-Cortez. Ambiciosa, a proposta pretende alcançar energia com emissão zero de carbono dentro de uma década e ainda oferecer empregos com salários bons para todos. A apresentação da proposta foi confusa e deixou legisladores e a mídia tentando entender o que tinha sido proposto de fato.

Em seguida, o novo governador da Califórnia, Gavin Newsom, anunciou que não iria mais completar a ferrovia entre Los Angeles e San Francisco, porque o projeto teria ficado muito caro. “Esse era exatamente o tipo de projeto que o Green New Deal defende, e se a Califórnia, rica e profundamente progressista, não pode fazê-lo acontecer, é difícil imaginar que a economia e a política de projetos semelhantes funcionem em todo o país”, afirma Sen.

Os adversários do acordo de Nova York com a Amazon estão, com certeza, comemorando as notícias de quinta-feira, mas estão pisando em um solo instável politicamente, já que a vinda da Amazon estava sendo constantemente aprovada pelos eleitores. O apoio ao acordo com a Amazon era mais alto entre os eleitores negros e latinos, com os eleitores brancos consideravelmente mais divididos, em grande parte devido às preocupações com a superlotação da infraestrutura e o agravamento da crise imobiliária.

Fonte: Gazeta do Povo

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